

O vídeo do Sr. Luiz Carlos Prates postado aqui no site teve grande repercussão. Dentre as muitas manifestações, recebemos por e-mail um desabafo muito interessante que, com a devida permissão do autor, reproduzo neste post, na íntegra.
Se você ainda não viu o vídeo em questão, clique aqui.
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“Conheci o blog pelo twitter e fui cair no post sobre o assunto infame. Difícil comentar o vídeo no blog porque normalmente gera flame.
Fiz bacharelado em ciência da computação em universidade pública e acho que aquele Sr. vive num mundo totalmente desconhecido ou nunca entrou novamente em um curso depois de formado – se é que é formado em alguma coisa, porque eu não o conheço -, já que o “estilo” da educação deve ter sofrido alguma mudança em 40 anos. Minha mãe deve saber mais sobre isso, já que cursou matemática plena, foi professora de segundo grau e tem 65 anos.
Encare isso mais como um desabafo, porque o que esse Sr. disse no vídeo é mais do mesmo que venho escutando desde 2003.
“3 horas de estudo depois das aulas em casa. ‘Ah, mas eu não tenho tempo’…Dê um jeito.”
Encare de 7 a 9 disciplinas com 1,5h cada, todas com 3 provas, pelo menos 2 trabalhos e requisitando pelo menos 2 horas de estudo cada. Só de aula você teria, no máximo, 13,5h. Mais 18h, temos 21:30, ou seja, você “perde” o dia em estudos. Se o curso ocupar apenas um período do dia sem intervalos entre uma aula e outra, ao chegar em casa à tarde (considere 13,5h), pelo planejamento do Sr. no vídeo, eu teria que estudar até às 7:30h do dia seguinte, para “levantar”, tomar café e ir para a aula de novo. E, obviamente, é um comportamento que termina por detonar completamente a memória (mesmo sem pó de guaraná) e faz você reprovar em quase todas as matérias porque ficou estudando feito um alucinado. Eu sei disso, já aconteceu comigo. Finais de semana são reservados para lembrar de que existe uma vida social a ser mantida (pessoas reais) e lazer mental (se possível, “esquecer que faço faculdade”), e acho que a razão 5:2 é “injustamente óbvia” para justificar essa escolha.
“A incompetência gerada pelas universidades formou uma leva de brasileiros incompetentes.”
Creio que a frase correta seria “A incompetência que está presente nas universidades gera (…)”. Eu não espero que segurem minha mão e façam as coisas por mim, mas espero o mínimo de competência dos professores na hora de dar aulas e corrigir trabalhos e provas. Para mim é brochante ter que aceitar uma definição dada com base em achismos de alunos, sem uma conceituação formal e/ou aceita pelos profissionais da área, cujos livros texto são indicados no início do semestre, e que, não raramente, meus professores não leram. Mas se eu comentar isso no centro acadêmico do curso, não vai dar em nada, como sempre aconteceu.
“A pós-graduação é um atestado de que o cara não sabe nada.”
Só posso comentar que, em certos casos, a pós-graduação atesta que há alguma coisa MUITO errada no processo de admissão, pois já vi gente que comentava absurdos como “é só executar o algoritmo até o infinito para ter a resposta” ir parar num mestrado. Mas isso é coisa do individuo e não do título. Atualmente eu faço especialização em tecnologias web na PUC, porque é uma sopa de letrinhas tão grande, que eu não sei por onde começar. Pelo menos para isso ela me serve, já que estou “fugindo” da academia e indo para o lado mais prático, mesmo ainda tendo interesse em coisas como complexidade de algoritmos e outros assuntos que dificilmente vão cair numa prova de contratação ou certificação de linguagem/sistema operacional/ferramenta.
Assim que entrei na graduação, o então vice-coordenador explicou para todo mundo que à medida que subimos os degraus com as titulações, precisamos depender cada vez menos dos outros para realizar o trabalho (de certa forma, é uma maneira forçada de fazer isso). Se o Sr. Luiz Carlos Prates espera que todo mundo fique na barra da saia da mãe e fala isso publicamente, então eu vou me mandar já daqui, porque o Brasil não tem mais jeito. Além disso, o autor do vídeo parece esquecer que ele não sabia resolver derivada de segunda ordem, demonstrar teoremas usando indução matemática ou sequer sabia da existência de números complexos quando entrou na 1ª série. O conhecimento se adquire em etapas e dado o tempo de existência de determinadas ciências (e outras que elas abrangem), é impossível enfiar tudo o que já foi confirmado ou refutado ou que está sendo experimentado apenas na graduação. E nem todos os pais são intelectualmente bem-dotados.
“Façam ao longo do curso universitário um curso paralelo, pesquisas por iniciativa pessoal, estudos de toda sorte, toda ordem.”
Faço a mesma observação das 7 a 9 matérias. Com o agravante de que alguns cursos são em período integral (como o meu, por exemplo). Acrescente a mesma observação de 3 horas de estudo por matéria e verá que esse Sr. não pensa muito antes de falar. Um caso que presenciei foi o de um colega que fazia Ciência da Computação na UFPR e Direito na PUC. Ele não conseguia levar os dois cursos e acabou largando a UFPR. Outro foi uma conhecida que fazia UFPR e CEFET, e terminou ficando no CEFET mesmo. Eu mal conseguia pesquisar sobre criptografia, matemática discreta, geometria e grafos durante a graduação porque tinha que revisar matéria, fazer trabalho e ir para o estágio… E essas coisas eram matérias do curso!
“Como a grande maioria só quer salário, dá nisso que anda por aí: incompetências multiplicadas.”
Eu não conheço nada que mantenha a vida de um indivíduo a não ser dinheiro. Não aprendemos a fazer fotossíntese. Não somos imunes a doenças e nem a acidentes. Não somos o Wolverine. Precisamos de um abrigo para nos proteger do tempo (e essa constatação não é nova) e até mesmo de outras pessoas. Precisamos pagar o colégio dos filhos. Precisamos cuidar dos pais já idosos. Precisamos comprar livros e frequentar cursos para aperfeiçoarmos nosso conhecimento ou adquirir novos. Precisamos pagar os impostos para não irmos para a cadeia e não termos os bens confiscados.
E para tudo isso precisamos de dinheiro. Se ele se contenta com R$ 1.500,00 fazendo um bom trabalho, o problema é dele. Mas se eu faço um bom trabalho, acho que não deveria receber a mesma quantia salarial de alguém que faz um trabalho mal feito e nem permanecer em uma empresa que não me dá oportunidade real de crescimento. Naturalmente, alguém nessa situação vai procurar um lugar melhor para trabalhar, e normalmente isso tem a ver com o salário no final do mês, porque gentileza e cordialidade dentro de uma empresa podem ser só fachada.”
Postado por posgraduando
Data: 12 de junho de 2010
Categoria: pós-graduação.
Palavras-chave: faculdade, pós-graduação, universidade
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